Os instrumentos de sopro e seus encantos. Série de textos sobre música e mitologia grega:
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3. Um sopro de vida

Então soprou-lhe nas narinas o fôlego da vida; e o homem tornou-se alma vivente… Conta-nos a tradição judaico-cristã. Porém, se nesse homem houvesse furos, teria saído música de seus poros. Para o grego do mundo antigo, a simbologia do sopro também estava associada à vida. Psique (ψυχή) era o “sopro de vida”, pois acreditavam que “aquilo” que anima o corpo estava na região do diafragma. Ora, tocar um instrumento de sopro, manipulando a própria respiração, seria, portanto, menear a vida

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Um mito contava aos helenos algo sobre o aulos: o duelo musical entre Apolo e Marsias. A deusa Atena criara o aulos (instrumento de sopro), mas o jogou fora, pois deformava as suas bochechas quando o tocava. Marsias, um sátiro ligado ao deus Dionísio, encontrou-o e aprendeu a tocá-lo. E então, desafiou Apolo para uma batalha musical. Apolo, tocando sua lira (instrumento de corda), ganhou do sátiro e, como punição por ter desafiado um deus, Marsias foi esfolado. Compaixão não era com os gregos.

Esse duelo revela uma oposição entre cordas x sopro. A lira é, por excelência, o instrumento de Apolo, deus da ordem e da harmonia, porque se faz da organização sistemática de cordas. As relações matemáticas dos intervalos musicais foram compostas a partir da divisão de cordas: corta-lhe a metade e tem-se um intervalo de oitava – relação de ½. No entanto, não é da natureza do aulos ser tão inflexível. A flauta, por exemplo, só ganhou maior estabilidade na afinação após o sistema moderno de chaves. Os instrumentos de sopro se utilizam da respiração, “daquilo” que anima o corpo para produzir som, dando-lhes um caráter mais misterioso. Portanto, podemos fazer uma associação entre a lira, como Apolo, à mente racional; o aulos, como Dionísio, à natureza obscura do corpo

O flautista que encanta serpentes; o flautista de Hamelin… A flauta é mágica, hermética. Seus poderes de encantamento ganharam projeção no imaginário comum. Subordina quem a ouve aos desejos de quem a toca. Por exemplo, Daphnis seduz Chloé com uma espécie de flauta; o fauno seduz as ninfas da floresta tocando aulos

Ao nos aventurarmos nas águas do desejo e da sedução, estamos entrando nos domínios da deusa Afrodite e de Eros (Vênus e Cupido em Roma). Eros era entendido como o desejo do corpo, era o impulso que unia os contrários macho e fêmea, forçando-os à cópula. Para que isso acontecesse, seria necessário Afrodite e seus poderes de sedução. Afrodite é a deusa manipuladora, pois para a seduzir o outro adultera-se a própria forma. Quem está apaixonado se veste melhor, dá um trato no cabelo, enfim, manipula-se para encantar o outro.

Eros ficou no nosso imaginário como carregando um arco e flecha, mas, na iconografia grega, podemos vê-lo tocando o aulos. Quem é atingido por sua flecha (ou por seu som), não sossega até se unir ao desejado. Esse desejo do corpo é misterioso, é o nosso lado animal que não compreendemos e vai contra nosso pensamento racional. Platão rejeitava o aulos por incitar paixões do corpo e elevava a lira por seu caráter racional. Mas, é pelo sexo que a vida acontece e sem ele não há o sopro que anima a carne. 

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Referências Bibliográficas:

RAGUSA, Giuliana. Tramas de Afrodite e Eros: sedução e capitulação na mélica grega arcaica. Nuntius Antiquus, Belo Horizonte, 2010.

CERQUEIRA, Fábio Vergara. Apolo e Marsias: certame ou duelo musical?. Clássica, [s. l.], 2012.


Série Orpheu: 3. Um sopro de vida – Gabriel Delvage

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