O surgimento da ópera a partir do Mito de Orfeu, da Grécia antiga. Série de textos sobre música e mitologia grega.
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2. O nascimento da ópera

Na Grécia antiga predominava a cultura da canção: música e poesia formavam uma unidade. O drama era o gênero poético para ser encenado, vivido por atores em palco. Mais tarde, no Renascimento (período do reflorescimento dos valores da cultura greco-romana) houve um grande esforço para recompor essa poesia dramática que fora deteriorada pelo tempo – o texto se preservou, mas a música e a performance se perderam. Dessa lida surge a ópera.

O drama surgiu nas grandes dionisíacas: festas em honra ao deus Dionísio. Dionísio não cresceu no Olimpo, na morada dos deuses, mas sim no Oriente, onde aprendeu a cultivar a vinha e a produzir o vinho. Logo espalhou seu culto pela Ásia e ao retornar à Grécia, esteve sempre assumindo as formas do “outro”. Dionísio é o deus da máscara, da alteridade, do êxtase. Não é à toa que o drama surge em festas a esse deus. Nelas, as pessoas bebiam muito vinho até se embriagarem. Quem já não ouviu: ele parece outra pessoa quando está bêbado! Ora, o drama é exatamente interpretar a forma do outro, parecer outra pessoa, outrar-se.

Toda essa mitologia e expressão artística foi se perdendo pela era cristã. Mas, por volta do século XV, alguns europeus estavam bastante preocupados em resgatar a cultura do mundo antigo. A música da renascença foi estruturada e desenvolvida a partir de relações matemáticas deixadas por Pitágoras, resultando em uma música de intensa polifonia, por vezes nem destinadas aos ouvidos de tão complexa, e sim à inteligência. Aliás, todo esse período de recuperação greco-latina foi pautado em relações de ordem matemática. Essas são forças apolíneas, do deus Apolo, deus da harmonia, porém o drama é dionisíaco: desordem e transgressão. Por isso, a poesia dramática começou a ser remodelada apenas no fim do Renascimento, quando começa a emergir o Barroco.

Poesia é sinônimo de música no mundo antigo. Isso posto, para reorganizar uma nova poesia dramática seria necessário fundir texto, música e, no caso do drama, atuação. E mais, essa poesia não deveria ser feita para a razão e sim para os sentidos. Eis que ressuscita o mito de Orfeu. Orfeu não fazia música complexa, apenas cantava acompanhado de sua lira. Sua poesia fazia os animais e as árvores se inclinarem para ouvi-lo a cantar. Seu canto fez Hades, deus do submundo, chorar lágrimas de ferro. Fazia poesia simples que emocionava.

Portanto, o canto monódico de Orfeu e sua comparação com o deus do drama, Dionísio, eram a imagem perfeita para os novos ideais estéticos do fim do Renascimento e começo do Barroco, para, então, instaurar um novo teatro de inspiração grega. Foi Jacob Peri (1561-1633) quem conseguiu fazer a fusão dramático-poética em sua obra Euridice, evocando o mito de Orfeu. Ela pode ser considerada a primeira ópera. E, Claudio Monteverdi (1567-1643) com sua obra La favola d’Orfeu integrou novos elementos a esse novo estilo de composição, delimitando-o melhor. Depois, foram compostas mais 60 óperas trabalhando o mito de Orfeu, tornando-o o mais popular tema na história da ópera.

Ouça alguns trechos de óperas e compare como o mito de Orfeu foi trabalhado pelos tempos [clique nos botões a seguir]:


Referências bibliográficas:

BESSA, Robson. Orfeu o mito, e a ópera. Modus, Belo Horizonte, v. 13, p. 25-33, 2013.

BARBOSA, L. O Estrangeiro e o Autóctone: Dionísio no Mediterrâneo. Mare Nostrum, v. 2, n. 2, p. 20-40, 2011.SEMINÁRIO NACIONAL DE HISTÓRIA DA CIÊNCIA E DA TECNOLOGIA, 13., 2012, São Paulo. A acústica musical no renascimento da música. São Paulo: Sociedade Brasileira de História da Ciência, 2012.


Série Orpheu: 2. O nascimento da ópera – Gabriel Delvage

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