Série de textos sobre música e mitologia grega: A importância da música na Grécia Antiga e sobre sua relação com a poesia.
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1. O rasgo da mousiké

Música e poesia é como feijão com arroz, um completa o outro. Dos 20 aminoácidos essenciais para o nosso organismo 19 estão no feijão; adivinhe onde está aquele que falta… exato, no arroz. Hoje fazemos uma distinção entre as duas artes, mas antigamente, no berço da civilização ocidental, era diferente: música e poesia não se apresentavam separadamente, elas eram compreendidas como uma unidade indivisível.

Vamos à Grécia do século VII a.c. A tradição oral predominava nesse tempo. Desse modo, o armazenamento das tradições não ficava registrado em livros e depois transmitidas por escrito, mas sim através da mousiké (μουσική). A mousiké era música e poesia como unidade. O grego não enxergava a distinção de hoje entre as duas, como duas manifestações artísticas distintas. Toda poesia era cantada e toda música existia para acompanhar uma poesia. A memória, portanto, fazia-se muito importante nesse contexto, porque como não havia escrita, transmitia-se a cultura pela fala, ou melhor, pelo canto. Tente narrar, decorado, todos os salmos da bíblia exatamente como estão escritos, sem esquecer uma vírgula. Isso é muito difícil, impossível. Agora, há pessoas que cantam sem dificuldade toda a letra de Faroeste Caboclo e não mais a esquecem por toda a vida. É muito mais fácil guardar na memória a palavra cantada. É muito mais fácil transmitir estórias mediante a poesia cantada.

Isso posto, a mousiké exercia uma função prática: preservar a cultura na memória e formar as próximas gerações. A arte era a própria escola. A educação do cidadão grego se dava ao mesmo tempo que sua formação musical. Enfim, o coro era imprescindível e encarregava-se de uma função de extrema importância: a formação do próprio indivíduo para então inseri-lo em sua comunidade. Esse seria o sonho de todo professor de canto coral…

Mas o que houve para as coisas mudarem? Sobreveio a valorização da cultura escrita. No século II a.c. já existia a grande Biblioteca de Alexandria. A biblioteca – repare bem – representa o triunfo da escrita. Não se necessita mais da utilização dos artifícios da memória para guardar conhecimento, pois é muito mais fácil, e seguro do esquecimento ou modificações, guarda-los em livros, na biblioteca (ou talvez em papiros nessa época). Os eruditos dessa época eram formavam pela escrita. Eles, ao reunir e registrar a produção cultural das épocas passadas, passaram por escrito o que fora a mousiké. E como a formação já não era mais feita pelo coro, não entendiam de música, passando apenas as letras para o papel.

Assim perdeu-se o som dessa literatura. Assim houve o rasgo que distinguiu música e poesia. Os termos dessa poesia antiga acabaram por gerar os vocábulos associados à música em decorrência de confusões futuras dos que já não mais seriam educados dentro do coro; a própria mousiké gerou a palavra música; a mélica, antiga poesia acompanhada pela lira, gerou a palavra melodia; entre outras.


Série Orpheu: 1. O rasgo da mousiké – Gabriel Delvage

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